A sua volta tudo era branco e
frio. O início era facilmente confundido com o fim, já que ambos tinham a mesma
e vazia cor. Havia a vaga lembrança de uma antiga aula, onde aprendera que o
branco era a junção de todas as cores. Quem dera estivesse faltando alguma,
para que o terreno a sua volta pudesse ser um pouco mais colorido.
Para ele, não havia nada mais
difícil do que o branco. Durante toda sua vida tivera de enfrentá-lo e agora seu
maior adversário estava a sua volta, reinando toda imensidão de um mundo. Até o
céu, que em dias mais felizes mostrava-se azul, naquele momento parecia ser
refém, talvez até servo, do branco. As nuvens, a neve, tudo se confundindo em
um horizonte inexistente.
Resolveu caminhar tendo como
referência seus próprios pés. Não olhava mais para frente, apenas para baixo.
Passo após passo, a cor do movimento de suas botas era como suas primeiras
palavras no branco do papel. Já vencera aquele adversário antes. Ele era um
escritor de renome, vendera diversos livros. Não foram poucas as vezes que suas
palavras haviam derrotado a união de todas as cores, e não seria aquela a sua
primeira derrota.
Apegando-se as próprias cores,
aumentou o passo. Não olhava a sua volta, não se importava com a paisagem, aparentemente
inexistente. Seguiu uma única direção e não parou. Durante horas nada mudou.
Mesmo coberto por várias camadas de pele, sentia-se angustiosamente perfurado
por mil agulhas. Outra lembrança, dessa vez de algum documentário onde homens
corajosos enfrentavam nevascas. Sempre diziam que era essa a dor do frio, mas
para ele existia algo pior do que a dor física. Em seu peito reinava a dúvida,
pois essa era a melhor arma do branco: a dúvida.
Começava a duvidar de sua
capacidade, até mesmo de sua própria existência. Pensou em Nietzsche e em sua
fórmula para descobrir o que era e o que não era real. Para o filósofo alemão,
se uma faca entrasse em seu peito e o fizesse sangrar até a morte, ela se
mostraria real, assim como você, pois ambas as existências se provariam através
do conflito. O resultado seria a morte, e esta seria um problema. De que
adiantaria provar sua existência, para logo depois deixar de existir? Mas,
seria a morte o fim da existência? Aliás, o que era o fim, e o que era o
começo? Tentou lembrar-se do que acontecera antes de se encontrar envolto pelo frio
branco, e percebeu que não conseguia. Parou para pensar se a fórmula existencial
do alemão realmente era aquela e começou a questionar se ele mesmo não havia
inventado aquilo. Eram muitas as perguntas que se formavam em sua cabeça. Como poderia
lembrar-se de uma antiga aula, e não do começo de sua aventura pelo que parecia
ser o ártico? Por distração, levantou a cabeça para pensar, deixando de olhar
apenas para o movimento de suas botas, e percebeu que o branco fora vencido
novamente. Longe, muito longe, mas em algum lugar a sua frente, havia um pequeno
ponto preto. Ainda não era capaz de dizer ou descrever o que via, mas aquela
ausência repentina de cor era sua ilha de esperança. Agora havia um ponto de
referência a ser seguido, e finalmente sua direção não seria em vão, teria um
significado.
Enquanto o ponto não se aproximava,
voltou a mergulhar em seus pensamentos. Percebeu que o branco sempre tentava
destruí-lo fazendo uso da dúvida, mas que a mesma funcionava como uma faca de
dois gumes. Sempre que afundava em dúvidas, encontrava perguntas, e quase que
instintivamente, a essas, formava respostas que eram repassadas ao papel.
Assustou-se. Talvez o branco não fosse um inimigo, mas sim um aliado. Seus
livros, textos, sua fama, tudo se devia a uma reação imposta pelo branco.
Procurou novamente pelo ponto preto e percebeu que o mesmo já não era mais um
ponto. A distância ainda era imensa, mas já era possível identificar que o que
se via era a interferência do homem na paisagem, no branco.
Esqueceu seus conflitos e conclusões
referentes à posição que o branco ocupava em sua lista de inimigos ou aliados,
pois agora quem imperava, mesmo que de forma mínima, era aquela ausência de cor
que se destacava do mundo. Enquanto caminhava, percebeu contornos que
possibilitavam encontrar alguma palavra para nomear o que antes, era apenas um
ponto preto. Era um galpão.
Novamente a dúvida instalava-se em
seu peito, mas dessa vez não de forma angustiante, devorando sua sensação e
percepção de existência. A forma e o tamanho da dúvida eram tão diferentes, que
resolveu que não deveriam receber tal nome. Melhor seria chamar de curiosidade.
Era isso, ele estava curioso.
Quanto mais o galpão, e agora tinha
essa certeza, o que via era realmente um galpão, se aproximava, mais perguntas
povoavam sua cabeça. Quem havia construído aquilo? O que haveria lá dentro? Que
finalidade teria um galpão em meio a todo aquele branco, a toda aquela neve?
A essas perguntas não conseguia
formular respostas. Aquela ausência de cor era muito completa para ser
respondida. O máximo que poderia fazer era descobrir. Suas descobertas seriam
suas respostas, mas não seriam suas próprias, nascidas e florescidas em sua
mente. Seriam reações. Seus olhos veriam e preencheriam as lacunas de sua
compreensão. Talvez essa fosse a grande maravilha do fim, do início. Não se
podia ver nem lembrar, e quando finalmente se alcançava um destes, com a morte,
não existia tempo suficiente para refletir e repassar a experiência. Talvez, no
fim das contas, o início e o fim fossem apenas palavras, coisas inexistentes
criadas para encobrir dimensões impossíveis de se conceber.
Quando começava a tirar boas
conclusões de um novo pensamento, percebeu que havia chegado ao objetivo. Sua
distração fora tamanha que escapou de bater com sua testa na imensa porta que
havia a sua frente por dois passos. Realmente, o que fora um ponto preto quando
visto de muito longe, era um galpão de proporções imensas. Alto o suficiente
para ter alguns andares e longo o suficiente para desanimar qualquer um que
ambicionasse ir de um lado ao outro.
Percebeu que suas mãos tremiam, mas
já não era frio. Cada pequena partícula de seu corpo vibrava com a possibilidade
de saciar sua curiosidade. Deu dois passos e se viu perto o suficiente para
bater na imensa porta, não hesitou e iniciou o movimento com sua mão. Enquanto
seu corpo atendia ao comando de sua mente, que pedira por três breves e fracos
toques naquela superfície, o tempo pareceu desacelerar e sua mente percebeu algo
de estranho naquela porta, e possivelmente no galpão inteiro. Assustou-se, mas
não a tempo de evitar as batidas. Não haviam detalhes a serem notados, não
havia como distinguir onde começava e onde terminava a porta. A impressão que se
tinha era de que o galpão inteiro formava uma única porta escura, sem cor,
inteiramente ausente de vida. Não havia sons, vibrações, não havia nada. Agora
entendia que o branco, que em toda sua vida parecera um sinônimo de nada, uma
continuação para o inexistente, era na verdade tudo. O branco era fértil, mas
ali, a sua frente, não havia possibilidades de letras, palavras, de cores.
Naquele galpão quem imperava era a ausência, a sombra. A sua frente algo
existia, não dando espaço para criações, apenas conclusões.
Era tarde. Foram três rápidas
batidas desacompanhadas da velocidade de sua reflexão. O chamado estava feito,
e instantaneamente atendido. Quando percebeu, já estava dentro do galpão, e da
mesma forma que não lembrava como havia começado sua aventura pelo branco, não
conseguia se lembrar da porta abrindo, ou do momento em que a atravessara.
Ele estava dentro. Só o que restava
era explorar e descobrir, não mais criar, apenas refletir.